O papel dos sentimentos na educação dos filhos

Rafael Freitas Gonzaga

Parece estranho falar assim, mas na verdade os pais nos ensinaram, desde cedo, o que são os sentimentos e como devemos nos sentir. Por exemplo, quando um pai diz ao filho: “Eu o vi chutando a porta e gritando, então quero saber porque você está com raiva?”, ele atribui ao filho um sentimento com base em um comportamento precedente. Nesse momento ele ensina o que é a raiva na interpretação dele. Ninguém nasce com a raiva, nós aprendemos o que devemos chamar de raiva. Ela, assim como todos os sentimentos, são produtos de contingencia de reforçamento. Assim a criança aprende que a raiva é daquele jeito que lhe foi ensinado. Ela não tem consciência de que a raiva é um estado corporal com alterações no ritmo de batimentos cardíacos, na freqüência respiratória e na pressão sanguínea, associada a um evento anterior que disparou essas alterações. Da mesma forma, a criança aprende na prática como é a vergonha. Ela não sabe que esse sentimento é um estado alterado que pode se caracterizar por ficar vermelho, gaguejar e suar. Todas essas manifestações autonômicas descritas acima ocorrem na presença de um evento precedente e vem acompanhado de manifestações voluntárias (responsivas), tais como falar demais, gesticular, gritar, abraçar, etc. Os pais nos ensinam a usar palavras como raiva, medo, ansiedade e nojo de acordo com os critérios deles do que seriam esses sentimentos e em que situações e intensidade eles são cabíveis.

Raiva, medo e ansiedade são exemplos de estados corporais associadas com eventos, mas muitos ainda têm uma visão antiga de que o sentimento é algo imponderável, meio místico, que nos aparece sem avisar, oriundo das profundezas do inconsciente e nos direciona para determinados comportamentos. Não é bem assim. Se seu filho tem muita raiva, essa raiva não vem do nada. Isso foi inicialmente ensinado, depois ele como sujeito se apropriou desse aprendizado com alguma autonomia sobre o que fazer com ele. Fomos ensinados a sentir da forma como sentimos. A grosso modo, sentimentos são a forma como cada pai, professor, amigo e membro da família nos ensinou a interpretar eventos externos e sinais corporais. É importante lembrar que sentimentos não são a causa de comportamentos, de forma que não é possível se dizer algo como: “bateu no namorado porque estava com raiva dele”. Para que isso ocorresse houve um  ou vários eventos antecedentes que causaram tanto a raiva, quanto a agressão. Em algum momento da vida nós aprendemos que diante daquele evento específico a resposta seria a raiva. Depois de adulto é mais difícil, mas ainda é possível se mudar a resposta ao evento para a que for mais adequada, segundo nosso objetivo em cada situação.

Não nascemos com nossos sentimentos elaborados, eles são uma construção social fruto de nossa alfabetização emocional. Quanto maior o nosso vocabulário para nomear os sentimentos, mais elaborados eles são. O trabalho de muitos psicanalistas nada mais é do que ajudar os clientes a colocarem palavras nos sentimentos, o que pode gerar grande alívio emocional. Suponhamos que uma mãe diga a um filho se referindo a como ele se sente: “você está deprimido”, talvez essa seja toda a capacidade de compreensão dela sobre os sentimentos do filho. Assim “deprimido” passa a ser o único nome que ele aprende para dar quando se sentir triste por exemplo. Poderia se sentir bem melhor se soubesse diferenciar triste de deprimido, comovido, desconsolado, abatido, consternado, desiludido, emocionado, magoado, melancólico, nostálgico, despedaçado, perturbado, prostrado, preocupado, etc.

Precisamos estar atentos e educar nossos filhos para reconhecer seus sentimentos. Isso pode ser feito ao demonstrar que você se importa com o que eles estão sentindo. Ajude-os na descrição minuciosa dos sentimentos deles e exponha os seus também. Isso gera envolvimento, intimidade e faz com que eles convivam bem com as emoções. Você pode começar explorando os órgãos dos sentidos e a percepção deles para sabores, cheiros, texturas, temperaturas e sensações como: salgado, doce, azedo, amargo, umami. A criança acaba expandindo seu vocabulário para outras experiências. Uma criança emocionalmente bem alfabetizada tende a reagir de forma mais amena ao que lhe acontece e lidar melhor com seus medos angústias e frustrações. Assim ela se relaciona melhor consigo mesma e com os outros e sofre muito menos.

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